Antes da pintura pronta

Quando a pintura fica pronta, é ela que aparece. A gente vê as formas, as cores, o desenho ocupando o espaço. Mas eu queria abrir este blog falando de uma parte que nem sempre chega junto com essa imagem: o trabalho que acontece antes.
Uma pintura não começa só quando eu chego para executar. Antes disso, existe a formulação do desenho. Dar forma a uma ideia já é trabalho. É ali que a composição começa a existir, ainda sem estar na parede, e que aquilo que depois parece resolvido vai sendo construÃdo.
Nesse desenho, uma decisão conversa com a outra. Uma forma muda a leitura da forma ao lado. Uma área vazia também interfere na composição. Pensar essas relações é parte do trabalho: o que vai ocupar o espaço, o que precisa respirar e como o olhar vai percorrer a pintura. A imagem final guarda essas escolhas, mas nem sempre deixa visÃvel o tempo de pensar em cada uma.
Também existe o trabalho com a cor. Selecionar as tintas e produzir as cores faz parte da pintura, mesmo antes de a primeira área estar preenchida. O resultado que aparece pronto reúne essas escolhas. A cor não está ali apenas para completar o desenho: ela participa do que ele vai ser.
Escolher uma cor envolve olhar para ela junto das outras. O mesmo tom pode chamar mais atenção ou ficar mais quieto conforme a combinação. Por isso, pensar a paleta e produzir as cores não é uma etapa que eu separo da ideia do desenho. Forma e cor se encontram nesse caminho, antes de aparecerem juntas na superfÃcie pintada.
É fácil olhar para uma obra finalizada e imaginar que o trabalho foi ir até o lugar e pintar. Eu entendo, porque essa é a parte mais visÃvel. Só que a execução carrega tudo o que veio antes. O desenho, as tintas e as cores não são detalhes separados da criação. São a criação acontecendo.
Quando falo desse trabalho anterior, quero trazer essas etapas para perto de quem vê a obra. A fotografia pronta mostra um resultado. Ela não mostra, por si só, a formulação do desenho, a seleção das tintas ou a produção de cada cor. Conhecer esse percurso ajuda a olhar para a pintura com mais tempo, percebendo também as decisões que a sustentam.
Tenho vontade de mostrar mais esse processo. Não só a pintura pronta, mas o volume de trabalho que existe por trás dela. Compartilhar isso é uma maneira de aproximar quem vê daquilo que eu faço, de deixar aparecer um pouco do caminho que a imagem final não conta sozinha.
Talvez esse seja um bom começo para este espaço: olhar para a obra sem pular o que veio antes dela.
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